Magicamente, intimamente, secretamente.







E se realmente gostarem? Se o toque do outro de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o outro for bom para você. Se te der vontade de viver. Se o cheiro do suor do outro também for bom. Se todos os cheiros do corpo do outro forem bons. O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons, normais, comuns. Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. Ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo, no tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. Você também tem cheiros. As pessoas têm cheiros, é natural. Os animais cheiram uns aos outros. No rabo. O que é que você queria? Rendas brancas imaculadas? Será que amor não começa quando nojo, higiene ou qualquer outra dessas palavrinhas, desculpe, você vai rir, qualquer uma dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido? Se tudo isso, se tocar no outro, se não só tolerar e aceitar a merda do outro, mas não dar importância a ela ou até gostar, porque de repente você até pode gostar, sem que isso seja necessariamente uma perversão, se tudo isso for o que chamam de amor. Amor no sentido de intimidade, de conhecimento muito, muito fundo. Da pobreza e também da nobreza do corpo do outro. Do teu próprio corpo que é igual, talvez tragicamente igual. O amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho. Se amor for a coragem de ser bicho. Se amor for a coragem da própria merda. E depois, um instante mais tarde, isso nem sequer será coragem nenhuma, porque deixou de ter importância. O que vale é ter conhecido o corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio corpo. Porque então você se ama também.


Autor: Caio Fernando de Abreu

4 comentários

Pr. Cláudio Moreira disse...

O menosprezo de Caio Fernando Abreu pelo que ele chama de palavrinhas 'cristãs', denota um injustificado recalque. Sua forma 'alternativa' de amar, se é que podemos definir assim, se não é inteiramente aceita numa civilização cristã, seria ainda menos tolerada numa civilização muçulmana, por exemplo.

Fabrício disse...

Adorei o texto, concordo com quase tudo. Pq acho que não preciso gostar do coco do meu parceiro... Mas entendi oq ele quis dizer. Acho que esse negócio de pegação não é bacana, o sexo só melhora com a intimidade, e sinceramente, é intimidade desse tipo que todos buscamos ter alguma vez na vida.

J P F O X disse...

Nunca tinha escutado sobre amor neste contexto. Aceitação do outro é o ponto de partida para o sucesso de uma relação, seja esta amorosa ou amizade. Até mais.

Daniel Silva disse...

não é o tipo de blog que eu gosto. mas você escreve bem. parabéns.

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